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Mensagem por Admin em Seg 19 Ago - 21:51


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Mensagem por Hadrianus em Ter 20 Ago - 3:10

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Mensagem por Marcello em Qua 21 Ago - 1:50

O MENINO LOURO


†††††

A lua desatava cascatas de leite e mel nos alcantis da Serra da Moreninha. Cosme, encostado no caixilho da janela, sentia-se envolvido pela transformação da natureza e, de repente, um largo suspiro desoprimiu-lhe o peito de uma velha angústia. Tempos houvera em que a vida fora leve e alegre e, do menino que sonhava, talvez brotasse o homem em paz com seu destino…

A torre da igreja, no alto do chapadão, pomposamente prateada pelo luar, era um convite à fuga, à viagem, a memórias distantes. Deixava-se levar não por um pensamento, mas por um sentimento quieto de regresso. Fora um menino louro, outrora – de sonhos louros também.

As noites de lua naquela roça braba, tinham o sortilégio de ressuscitar o menino louro.

— Por que os cabelos escurecem? – Perguntou-se distraidamente, olhando as torres de prata, as cascatinhas de leite despencando-se da serra e os telhados branquicentos da vila adormecida.

Não sentiu a porta abrir-se, atrás de si, estremeceu quando a voz de Eulália apunhalou-lhe a nuca:

— Cosme, não vens para a cama?

Voltou-se.

Ela estava junto à candeia – pés descalços, e um lençol aos ombros. Sentiu-lhe no olhar qualquer coisa de adunco, de faminto – era a fêmea inquieta na solidão do leito.

Eulália nunca teve cabelos louros! – pensou, enquanto se afastava da janela. Pegou o cachimbo e sentou-se no banco, espichando as compridas pernas de roceiro afeitas a ladeiras.

— Passa-me o fumo, mulher! – Disse autoritariamente, fingindo não perceber o apelo daqueles olhos.

Eulália apanhou a quicé e caminhou até a parede, do outro lado da saleta, onde estava pendurado o rolo. Jogou as pontas de lençol para as costas e, já mais desembaraçada, cortou um naco de fumo. Cosme acompanhou-lhe os gestos, viu a carne surgir das pregas naturais do pano, numa transparência espessa de cobre. Carne de mulher… de uns tempos para cá, sentia uma espécie de repulsa por carne de mulher.

— Que é que estás olhando? Nunca me viste? – perguntou ela, estendendo-lhe o fumo. Pegou-o juntamente com a quicé e, enquanto o picava na palma da mão, respondeu:

— Sempre te vi, mulher. Eu já estou até enjoado de te ver.

Naquela noite, há dois anos, vira os ombros nus de Ana morta em cima da cama. Vira também os ombros de sua mãe, quando alucinado, arrancara-lhe o gibão com o qual se disfarçava em homem. O tiro de bacamarte atingira-a na altura do estômago, fazendo um buraco feio.

— Mãe, por que fez isto?

— Não queria perder o meu único filho! – e morrera.

Socou o fornilho de cachimbo e tirou a caixa de fósforos de dentro do cano da bota.

— Já estou enjoado de te ver!

Eulália fungou quando o cheiro de fumo virgem penetrou nas narinas.

— Cosme, Cosme, tu te juntaste comigo só por provocação? Até parece que está ficando maluco…

Ele mudou a posição das pernas.

— Cansado… - murmurou.

— Mas cansado de quê, criatura? Não fazes nada, além dessas petições e isso não cansa. Eu, sim, trabalho feito burro de carga e nesta casa não sou mais que criada. Porque meu homem tu não és!

— Tenho sofrido tanto, Eulália!

— Mas devias sofrer como macho! Já aquela tua fuga de Andorinhas foi uma fraqueza, depois que o júri te deu absolvição. Devias ter ficado lá! Toda a gente sabia que tua mãe era uma jararaca mesmo…

— Cala-te, mulher!

— Não me calo e digo mais: com ela viva, eu não tinha vindo morar contigo. Ela te perseguia…

Cosme olhou-a de modo estranho.

— Ainda persegue. Está ausente, mas está.

Eulália sentiu uma súbita piedade por aquele homem quase derrotado, sentou-se também ao banco e, apoiando-lhe o cotovelo ao peito, olhou com amor o rosto atormentado.

— Sabes o que eu tenho pensado ultimamente? Que não sou mulher para ti. Sejamos sinceros, já é tempo.

Ele desconfiava dos impulsos de generosidade das mulheres. Quem sabe era apenas um golpe de tática para envolver ainda mais a presa…

— Vou-me embora, Cosme. O Sargento Pedro está aqui e ofereceu-me seu nome. Casarei com ele e terei muitos filhos para esquecer-te.

— Cala-te, mulher! Não me apoquentes!

A chama da candeia pinoteava ao vento. Eulália aproximou-se e apagou-a de vez, com um sopro. A janela tornou-se, de repente, um quadro vivo, com o luar transfigurando a paisagem crua do sertão.

Cosme voltou-se para a noite, encostado ao caixilho e puxando meditativas baforadas no cachimbo.

— Sempre que procuro mulher, lembro-me de minha mãe.

— Porque queres, Cosme.

— Não, aquilo me marcou.

Escondeu o rosto nos cabelos fartos e desalinhados de Eulália.

— Foi um acidente, Cosme.

— Não, não foi. Estou morto com ela. Deves deixar-me. Os mortos não amam.

Eulália abraçou-lhe o dorso magro, serpeado de músculos rijos. Sentiu-se repelida.

— Não é que eu não queira amar-te. Pensava que, depois da absolvição, tudo se arranjaria por si e eu poderia viver em paz, na companhia de uma boa mulher. Mas é uma espécie de pavor, compreendes? Às vezes me vem um desejo louco de vingar-me das mulheres, das suas ciladas, das suas artimanhas que nos prendem.

Deixou-se cair sobre o banco e Eulália sentiu que devia respeitar aquele silêncio de angústia. Ele era uma figura desfeita, cabelos e barba emaranhados e as pernas compridas de capiau que sempre procuravam uma posição melhor.

— As mulheres sempre me amaram demais! – disse sombriamente. – Primeiro, foi minha mãe. Tínhamos um empório, vivíamos bem em Belo Jardim. Sempre que eu falava em casar-me, enfurecia-se. Achava que devia apenas tomar como companheira, uma espécie de criada de cama, sem direitos dentro da casa. Ora, um dia, apareci-lhe com Ana, já estávamos casados e, em vez de lhe pedir consentimento, fiz-lhe a surpresa; aceitou-a. Isto é, fingiu apenas. Eu pensava que, com o tempo, tudo se ajeitaria. Fechei os olhos à guerra que se ateou entre as duas. Mamãe já estava no fim da vida e Ana que tivesse paciência de aturar-lhe os azeites. Quando eu saía para fazer a cobrança dos sitiantes e dos fazendeiros, meus fregueses, deixava o armazém com Ana, pois mamãe recusava-se a assumir a responsabilidade. “Você tem a sua mulher; eu aqui não sou mais nada.” Não sei que misérias fazia durante minhas ausências. Só sei que Ana deu de beber. Era moça, precisava de alegria e, já que mamãe cortava-lhe as alegrias naturais, tentava encontrá-las no álcool.

“Deve ter sido isto. Só muito mais tarde vim a compreender… Bati-lhe tantas vezes! Mamãe exultava com minha desgraça. Aconselhava-me a largar Ana. ” Enxote de nossa família essa bêbada!” Mas eu sempre tinha esperança de que tudo ia melhorar. A situação era aquela mesmo: mamãe no fim da vida. Ana que tivesse um pouco de paciência em aturar. Até que mamãe veio contar-me a coisa horrível: Ana enganava-me. Quando eu viajava para as cobranças. Duvidei, é claro. Mamãe desafiou-me para uma prova. E uma noite, selei o cavalo, fiz que partia. Dei a volta ao açude grande e, às dez horas da noite, estava firme na tocaia atrás do oitizeiro. Noite escura e sem aragem. O suor escorria-me pelo corpo, mas a arma estava firme na mira. De repente, um cachorro latiu. O vulto de um homem corpulento atravessou a cerca, dos lados do poço. Quanto pedi a Deus, naquela hora, que fosse um viajante, apenas um foragido que bebesse a sua água e se metesse pelo mato, outra vez. Orei a Deus com o dedo no gatilho. Mas o vulto dirigiu-se para o quarto de Ana. Primeiro, abriu-se uma frincha,, depois abriu-se toda e Ana, de camisola, recuou para que o homem entrasse. Dei o primeiro tiro. Não pegou. O homem voltou-se para meu lado, dormi na pontaria e acertei-o bem no meio do corpo. Caiu de borco. Avancei pela janela. Ana estava derreada, de lado, na cama, abraçada ao travesseiro. Ali mesmo ficou, sem um estremecimento, sem um ai, com um tiro na nuca. Morreu como um carneiro. A luz inquieta da candeia brincava-lhe nas espáduas nuas. Foi aí que voltei para ver o homem com quem estava me traindo. Era corpulento, como já disse. E, para o desviar, tive que puxar com brutalidade a gola do gibão. Senti com espanto que ali embaixo havia um corpo de mulher. A noite estava muito escura, adivinhei mais do que vi: minha mãe! ” Por que fez isto?” gritei-lhe. ” Porque não queria perder meu único filho.” – respondeu no último arranque de vida. Passei à noite sozinho velando os dois cadáveres. Escanchei-me no peitoril da janela e conversei com as duas mulheres mortas.”

“Depois da tragédia, compreendi quanto Ana havia sofrido calada. Por que não fora embora? Por que não deixara de amar-me e não fugira com outro homem? Tudo no mundo seria preferível a sofrer os tormentos que minha mãe deveria ter-lhe infligido. Ah! As mulheres não são seres normais. Tudo com elas acontece de uma forma delirante. As mães amam demais seus filhos, até que morrem asfixiados. As mulheres amam demais seus homens, até que eles fiquem inutilizados, desfibrados, amaricados. Amam os homens como se fossem mulheres também.”

Eulália apertou o lençol contra o corpo e recuou para o canto mais sombrio da saleta. Estaria diante de um louco? … Há tempos, desconfiava disso. Pela abstração do olhar, pelo descuido da aparência … Quando, após o julgamento, lhe dissera “Eulália, vou deixar este lugar para sempre. Começaremos nova vida.” ainda brilhava no rosto fino o clarão da esperança. Mas ao tentar reintegrar-se nos impulsos da masculinidade, a angústia o envolvera, ora em crises que o faziam soluçar como criança, ora em longos períodos de apatia. “Mamãe não me deixa! Não me entrega a ninguém!” – murmurava às vezes. Lá estava no banco com os cotovelos fincados nos joelhos pontudos, o dorso arqueado, a cabeça em pé, os olhos arregalados para os fantasmas do delírio. Talvez a força da lua o obrigasse a projetar-se com confissões.

— Por que – continuou com voz tensa – Ana deixou-se martirizar por minha causa? Por que minha mãe obrigou-me a ser um assassino? Por quê?… As mulheres nunca sabem que um homem não pode ter dono. Justamente porque é um homem.

Via a mãe morta com a carne aparecendo sob o pano escuro do gibão. E Ana de borco, abraçada ao travesseiro.

Ergueu-se, os olhos fundos, a barba emaranhada. Parecia um velho. Sentiu-se riscado por um calafrio. Quis abotoar a camisa, mas faltava botão.

— Ah, mamãe já não está viva… – Riu cruelmente. – Aprendi a pregar meus botões. Se ela ressuscitasse eu a mataria de novo.

Chegou à janela atraído pela lua. Seus dedos encontraram o cachimbo.

— Eulália?… dá-me o fumo.!

Há um certo mistério no silêncio, quando está vazio de presença humana. Cosme atravessou a sala, ainda de cachimbo na mão. Empurrou a porta do quarto, o lençol caído ao solo, a cama vazia. Sentiu escurecimento na vista ao compreender que Eulália o abandonara. Passado o primeiro instante, murmurou:

— Ela fugiu… O sargento a esperava. Foi melhor assim. Pegou a caixa de fósforos dentro do cano da bota e reacendeu a candeia. A chama gingou, alegre.

Pensativamente, preparou nova carga para o cachimbo. Depois armou a rede e apanhou a Bíblia, na prateleira de livros. Num jarrinho de barro havia dois cravos: um vermelho, outro branco. Ela o colocara ali, pela manhã. E dissera, sorrindo: ” Tu e eu” .

“Nunca mais.”

Ao acomodar-se na rede com o cachimbo e a Bíblia, sentia-se quase feliz. Como se houvesse largado a casca.

“Se eu tivesse um filho!…” pensou. Depois leu o Eclesiastes até que o sono lhe fechasse as pálpebras.

A lua forte alucinava a noite com fantasmas impossíveis.

†††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††††

Texto insólito, magistralmente escrito por Flávia.

Flávia é formada em letras com Licenciatura Plena, tem pós-graduação em Psicopedagogia, Linguística e Planejamento Educacional. É formada também em Filosofia e está cursando  
Pedagogia.


Gosta de escrever - tem mais de vinte premiações literárias, inclusive o Prêmio Otto Lara Resende em Crônica.

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